Raça Negra Boa Vistana

Raça Negra Boavistana

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Santa Maria da Boa Vista – Pernambuco

Entrevista com o historiador Alfredo José da Cruz Neto, Dona Maria Hilda dos Santos Araújo e os integrantes da Banda de Pífano Raça Negra Boavistana: Florêncio Henrique Lopes, Orlando Tadeu Souza de Lima (Pirainha) Alberto Marques Gomes (Pelé) e Samuel de Nascimento Araújo.

A histórica Santa Maria da Boa Vista, antiga cidade situada às margens do Rio São Francisco, é onde a banda de pífano comanda uma das mais importantes festas locais, a do padroeiro do rio, São Francisco. Dona Maria Hilda dos Santos Araújo é viúva de José da Silva Araújo (Zé Eleutério) que fundou, em 1983, a Banda de Pífano Raça Negra Boavistana para dar suporte à festa de São Francisco, também por ele idealizada. A continuidade da banda hoje está nas mãos de Florêncio Lopes, o neto de Zé Eleutério, Samuel, além de Orlando (Pirainha) e Alberto (Pelé).

Dona Hilda:

“Me sinto muito honrada pelo finado meu marido, porque ele era uma pessoa muito acolhedora e gostava de fazer esse movimento de cultura. Começou com quadrilha. Chegamos aqui, vindos de Petrolina, em 82. Em 83 ele jogou a idéia pro pai dele: – Por que, pai, não festejar São Francisco? Aí começou a festejar São Francisco, em 83. Ele foi atrás de um mestre de Caraíba, que era um senhor por nome Leocádio. Ele não sabia tocar pífano, meu marido. Aí ele foi atrás desse senhor e ensinou a ele a tocar. Ele foi atrás de outros membros que acompanhou ele, que já são também falecidos. Dois, aliás, três, com Seu Leocádio. Depois ele convidou o parceiro, aqui, Florêncio, que até hoje… Ele partiu pra vida eterna e deixou ele aí , deixou meu neto, deixou os amigos, aquele primo, eu espero que eles continuem. Que eles eram apaixonados por essa banda de pife. Ele era apaixonado, mesmo. Por essa cultura.”

“Ele começou a tocar num pife de taboca, que foi uma amiga dele que trouxe pra ele de Caruaru. Mas parece que ele não gostou muito, ele tocava e disse que o som era baixo. Aí ele foi fazendo esses pifes de pvc, ele foi fazendo esses, fez esses também, de ferro, mas aí ele terminou mesmo com esse pife aqui. Era o pife que ele tocava, era esse. Ele gostou mais do que os outros. Aí ele começou. Ele organizou essa banda, fez filme, aí, mais os meninos. Gravaram filme. Ia tocar em festejo na ilha do Massangano. Aonde convidava ele ia. Ele ficava agoniado quando não dava certo d’ele ir com essa banda. Participou de Lagoa Grande, naquela feira, Festa da Uva.”

“E na época que ele tava aprendendo, eu tava grávida do meu menino caçula. Eu disse: – Eita, meu Deus, você vai me enjoar! – Eu tenho que aprender a tocar meu pife! Aprendeu sozinho a tocar. Começou pelo ofício (de Nossa Senhora), a primeira coisa que ele aprendeu foi o ofício e Asa Branca, no pife. Aí os outros ele ia tocando, tocando, até que desenrolou tudo.”

“Mas como ele soube que tinha em Caraíba esse senhor que se chamava Leocádio, aí ele foi atrás. E não eram esses instrumentos. Era enrolado de corda, as caixas. Zabumba era enrolado de corda. Era instrumento do senhor que ele foi atrás. A caixa também. Aí ele convidou ele, Seu Leocádio. – Vamo enfrentar! Aí eles enfrentaram essa festa no São Francisco e depois fundou, fez várias festas.”

“(A idéia do nome da banda) veio do bispo de Petrolina. Caminhando com ele, em missão pra Santa Cruz, da Venerada: – Seu José, essa banda tem um nome? Aí Zé disse: – Tem, não, Frei Carlos. Ele disse: – Pois eu vou dar um nome. Raça Negra Boavistana. Isso já foi depois de 85, foi fundada a banda. Eu acredito que foi em 86, 87 por aí.”

“A festa do rio foi fundada por a gente. Eu e ele somos os dono da festa. Foi feita aqui em casa com a celebração da novena. São nove noite de novena que nós fazemo aqui. E a festa é dia 4 de outubro, que é o dia de São Francisco. Aí a gente realiza aqui a festa, tem o oficio, meio-dia, com o almoço, com lanche. 4 hora da tarde, no dia 4, a gente faz a procissão no rio com a banda de pife. Carro de som, se tiver, pra ir na balsa. Quando a gente consegue a balsa. Vai carro de som, todo mundo animado, fazendo essa procissão no rio. Volta pra casa, serve um lanche de novo. À noite, vai pra igreja, termina com a celebração da missa, volta pr’aqui, derruba a bandeira e aí encerra a festa com esse movimento todo.”

Florêncio:

“Quando eu era pequeno, garoto, o meu padrinho Ornelo e outro por nome de Damásio, que eram dois irmãos. E todos dois eram pifeiros. Tocavam nas festas, nas novenas. Depois veio Orneliano, que aprendeu com eles. Eles faleceram, todos dois e ficou Orneliano no lugar. Aí eu, menino, mas doido pra aprender. Ele tinha um cano que era desses aqui, ele tinha o maior ciúme, não deixava menino nenhum pegar pra num quebrar, né. Eu chegava lá, dia de quarta feira, ia pra tocar lá mais o filho dele, mais novo. Ficava lá, eu ia pra lá. Pegava, soprava, soprava, mas num aprendia, porque não tinha um mestre. Aí num aprende. Aí então, quando eu entrei mais eles, Orneliano, mais Seu Leocádio, aí foi que eu aprendi e ele, nós dois aprendemos. Esses dois véin que tinha lá, que tocava, que era dois irmão, era lá no Inhanhum. Ornelo e Damásio. Seu Leocádio era de Orocó.”

“A gente chama Festa das Águas porque a procissão, mesmo de quando o santo é São Francisco e o rio é Rio São Francisco, aí a gente faz nas águas, né. Nos barcos, tem uma balsa grande que leva os carros, leva tudo. E aí a banda de pife acompanha.”

“Nós aqui, o primeiro que eu conheci, era desse cano aqui, cano de taboca. Esses daqui foi uns que veio de lá de Maria de Cistino, quando ela comprou dois, um pra ele, outro pra mim. Mas nós num tinha a taboca por aqui pra fazer também, igual. Aí José disse: – Não, nós faz com cano de pvc. Ele que fazia. Eu agora tô fazendo, porque já tô só, sem ele. Nós fomos trabalhar num filme, no Memorial de Maria Moura, em Afrânio, num povoado lá por nome de Caboclo aí o cara lá da filmagem fez a medição da altura dos pife. Deu 120 metro de altura, altura do som.”

“Nós faz um bendito, que se a pessoa souber o bendito, ele sabe cantar o bendito. E os outros, nos lugar por onde eu já andei por aí afora, eles num puxa na letra, encima da letra da música. Quiriqui-qui-qui-qui-qui-qui-qui-qui-qui. Toca muito, mas ninguém entende o que que tá dizendo. É que nem os índios, nos começos lá, o índio era quem fazia isso, o índio. Por que foi que ele pegou um pife desse pra andar? Disse que era porque ele entrava na caatinga e às vezes um ficava perdido no meio da caatinga. Aí eles tocavam isso aqui, assopravam isso aqui que era pra poder os outros saber quem tava perdido. Eles já andavam cada um com o seu pra saber. E eles faziam aqueles cortadinho, aqueles negocinho. A nossa é diferente da dos outro. A nossa é encima do compasso da letra.”

Samuel:

“Eu acho que desde quando minha mãe engravidou de mim, meu avô já tinha na cabeça: – Esse vai ser tocador da banda de pife! Porque já de pequenininho, ele me acordava às cinco horas da manhã pra gente sentar numa pedra que tem aqui no muro ainda, meu mingau no pratinho, na papinha, ele tocando, soprando pra mim ouvir o pife. Com três anos de idade eu já queria bater… Aí ele pegou e disse: – Vem cá, Samuel, eu vou lhe ensinar a bater a zabumba. Aí ele me ensinou – que eu não sabia com a outra mão – só com uma mão. – Vai marcando, ó, que é o bendito. Só a marcação do bendito. E ele tocando o ofício de Nossa Senhora encima. Daí ele disse: – Cê vai entrar pra banda! Eu pequenininho, três anos de idade, a zabumba, naquele tempo, era gigante. Deitava a zabumba no chão, não tinha correia pra botar. Eu pequenininho já tocava com ele. Aí dali, eu acho que pela prática, eu fui gostando da cultura. Que sair, nenhum momento eu tenho vontade de sair da banda.”

Alfredo:

“Sobre a historia aí, o que fez encantar com a banda, é o seguinte. Quando Seu Zé contava. – Seu Zé, como foi essa história? – A gente ficava olhando pra esse rio, aí, dava uma pescaria com pai, com os irmãos. Esse rio dá tudo: dá água, dá água pra gente beber, pra tomar banho, pra molhar as plantas, dá o peixe ainda. E a gente não faz nada em troca. E aí, vão comemorar São Francisco, né? Mas festa de santo sem uma banda de pife num presta. Aí disse: – Então vão fazer o seguinte. Você fica responsável pela banda e eu pra organizar a festa. Aí Seu Zé foi correr atrás dos pifeiro que existia. Agora, eu acho que essa memória de dizer assim, que uma festa de santo só presta com uma banda de pífano, acho que vem desde os tempos da colonização mesmo, dos aldeamentos missionários ao longo do rio São Francisco. Nosso território aqui hoje tá entre Orocó e Santa Maria da Boa Vista, a gente tem, tivemos, pelo menos, três aldeamentos missionários. O da ilha da vila, né, Vila de Santa Maria, que fica em frente a Orocó, que foi uma das maiores. A de Inhanhum, que já é reconhecida como quilombo, que é a comunidade de Seu Florêncio e a da Nossa Senhora do Pilar, que é do porto de Coripós. Então a forma de catequizar, colonizar através da fé, como pros indígenas aqui da região – o país todo, né? – a música e a dança é um elemento muito forte. Uma das formas de ensinar a fé cristã é através da música. Aí os Reisados, hoje a gente tem vários na cidade. E também as bandas de pífano. Seu Zé, eu lembro uma vez ele disse assim, muito forte, numa conversa que a gente fez, ele dizia assim: – Não, isso é coisa de índio. Isso é do tempo dos índios. Que tocar num pedaço de pau, num é um instrumento que veio industrializado. Um negócio que foi feito, testado, criado, né? Então essas tradições se juntaram com esse incentivo de celebrar as festividades religiosas que aconteciam aqui na nossa região, e foi muito forte essa presença da catequização através dos aldeamentos, era um reduto onde juntava os índios ali. Depois teve uma lei que eles não podiam nem sair das ilhas. Eles tinham que ficar aldeados ali. E com certeza, se a gente for pegar a história desse pessoal que Dona Hilda falou, dos mais antigos que passaram pra Seu Zé, que Seu Florêncio viu, se for buscar a origem, a história deles, com certeza vai estar de certa forma ligado a isso. Como também a banda de pífano lá do Projeto Fulgêncio, a Simplício Rosendo, eles tem a tradição da ilha, a ilha que também era um aldeamento, a Ilha da Missão, em Belém de São Francisco. Então toda a história das bandas de pífano daqui da nossa região tem um pouco disso. Por isso que Seu Zé disse: – Uma novena que se preze, tem que ter uma banda de pífano. Herança dessa tradição bem antiga. E uma coisa forte que eu acho é essa gratidão ao Rio São Francisco através da cultura. Através da música. E de certa forma, a banda de pífano e a festa que se realizava e realiza, ela é muito forte na nossa região por essa relação do próprio rio, do cuidado, do zelo. Quem tem zelo de cuidar, de aprender, de montar uma banda de pífano pra celebrar um santo, com certeza tem um zelo com a vida, com a vida das pessoas e com a vida do rio, também. E eu acho que esse é um dos grandes legados que Seu Zé deixou. E a senhora participou ativamente disso. E eu acho que se não fosse Dona Hilda também não tinha essa banda e não tinha essa festa. Esse zelo é muito forte, de agüentar todo dia, cinco horas da manhã, a tocada do pífano, cabra aprendendo, o som saindo errado, estranho ainda… É uma grande parceira, uma força muito grande, com certeza, na condução dessa banda.”

“Aqui sempre me falava que pífano, no tempo dos índios, só eram duas notas e era sempre no horário de meio-dia, um da tribo tocava aquelas duas notas. Quando o povo ouvia, sabia que era meio-dia, horário do almoço. Horário daqui todo mundo se reunir. Cansei de ouvir ele falar aqui. Mas antigamente era só essas duas notinhas. Só desse tamaninho, era só um apito. Tocava ele era pro povo se reunir pra almoçar.”

Raça Negra Boa Vistana
Banda de Pífanos Raça Negra Boa Vistana