Banda de Pífano de Tonheiro Grande

Localização

Local: Riacho Grande, Carnaubeira da Penha – Pernambuco

Entrevista com Antônio José da Silva (Sr. Tonheiro Grande) e os integrantes de sua Banda de Pife: Lucas Teodoro Quirino, Manoel Feliciano, Adriano Antônio da Silva.

Seu Tonheiro Grande nasceu no município de Salgueiro, em 1939 e, aos três anos, veio para Riacho Grande, no território indígena Atikum, onde foi criado e estabeleceu-se em definitivo. Este mestre do pife e da contação de histórias passou a maior parte da vida dividido entre dois afazeres: tocar nas bandas de pífano e garantir o sustento da família fabricando e vendendo cordas de caroá. Tonheiro é solicitado para tocar em diversas novenas das redondezas e outros municípios, como Lagoa Grande, que recebeu muitos imigrantes de Carnaubeira da Penha. Seus pífanos são de PVC, como aliás, é a maioria dos pífanos que hoje se vê no sertão pernambucano. Já os instrumentos de percussão ainda preservam as matérias-primas e modo de fabricação tradicionais. Lucas Teodoro Quirino é sanfoneiro e há alguns anos vem acompanhando Tonheiro no pife.

Tonheiro:

“Meu patrão, quando eu comecei, eu treinei em cano de mamoneira. Na roça, debaixo dos pés de pau, a minha vontade era aprender a tocar pife. Então que meus tios, Del, Ciço Bento, João Bento, Pedro Bento, foi quem me deram a introdução d’eu aprender. Quando eu tava treinando mesmo, eu fui tirar uma noite de novena num lugar por nome Traíra, perto de Parnamirim. Aí deu vontade de chorar, que quando eu fui comer um taco de canudo meus dedos tava tudo mole. E disse: – Tio Ciço, pera aí! Eu num quero mais essa profissão, não. A cabeça ficou deste tamanho, fiquei quase doido da cabeça. – Não, meu filho, calma! Vai aprender, que meu filho aprende. E nessa brincadeira, peguei tirar as festas mais eles e aprendi dar um assoprinho no pife, graças a Deus. Tinha 10 anos. Hoje tô com 80. Eu nasci no município de Salgueiro. Depois fomos pra Tacaratu, nos Coelho. Depois quando eu interei três ano, aí vim de lá pra cá. Aí daqui pra cá eu não saí mais pra canto nenhum, não.”

“Ah, já vem dos mais velhos. Desde quando começou a tocar por aqui, não tem nenhum vivo mais não. Já morreram tudo. Pronto, pra melhorar a história: tem um prefeito aqui em Mirandiba que chama Bartolomeu. A mulher de Bartolomeu me contratou pra eu ir assistir um bate-papo lá na prefeitura. Meu irmão, esquentei a cabeça! – Seu Antônio, tá com quantos ano que o senhor toca? – Muitos ano! – E o senhor lembra quem tocava aqui? – Rapaz, vou ver se eu me lembro. Botei aqui o pessoal da Quixaba, Paulino de Bastião. Botei aqui do Olho d’Água do Padre, André Cacheado. E lá vai e tirei e rodei e rodei, esquentei a cabeça, disse: – Menino, não tinha mais, não. Aí disse: – Agora o senhor vai contar sua história, como foi a usina de Caroá. Meu irmão, contei bem umas oito usinas de caroá. – E o senhor, de caroá, criou os seis filho? – Criei. Aqui mesmo nesse terreiro, fazendo corda pra vender nas feiras.”

“Negócio é o seguinte. O pife, vou dizer o significado do pife. Que isso aqui não ensina, não, tá entendendo? Que isso aqui não ensina pessoa nenhuma. É o senhor se lembrar… Digamos, tá trabalhando numa roça. Aí o senhor assubeia uma música qualquer, né? Aí o senhor declara: – Peraí, vou caçar ela no pife. Pode caçar nesses seis buraco aqui que o senhor encontra. A música que o senhor assubiou no bico: – Fi-fi-fi-fi. Pode achar aqui que acha. Entendeu? Eu tiro por isso. Eu fui tocar lá na Floresta, o primeiro ano que eu toquei na Floresta, eu tava tocando lá na igreja de São Bom Jesus dos Aflitos. Aí demo alvorada de manhã, 6 hora. Aí quando foi pra dar alvorada de meio-dia, nós reparamo aqui no beco, vinha 16. Tudo músico, né? Aí foi: – Em forma! Em frente à igreja. Aí o rapaz falou: – O primeiro! Eu pensava que o primeiro era eu, né? Ainda fiz: – Fiu… Ele fez só assim: [gesto pra parar]. Baixei o tom do pife. Era um homem por nome Zé Tibúrcio. Aí vai lá, tocaram, tocaram, tocaram. Eu tô que nem o papagaio. Que o papagaio, o senhor tá conversando, ele tá mudando os óio. Fica vermelho, fica branco, fica de toda cor. Aí eles tocaram. Um dobradinho, tocaram, tocaram, tocaram. Quando ele parou: – O segundo! Aí eu puxei o meu. Quando eu puxei o meu aí o Zé Tibúrcio: – Peraí, Seu Zé, como é o nome do senhor? – Meu nome é Antônio João da Silva, agora, apelido é Tonheiro Grande. – Me diga uma coisa. Eu disse: – Se eu sober eu lhe digo dez. – Quantos tom o senhor faz nesses 6 buraco? Eu disse: – Eu faço vinte e quatro. – Vinte e quatro? – Faço. – Vinte e cinco é nesse daqui. Pode tapar, se molhar o dedo uma coisinha, ele já dá uma nota diferente. Que chama o tom negativo.”

Sobre como o caixeiro Manoel Feliciano começou a tocar, recorda Tonheiro:

“Dessas latas mesmo de leite ninho. Ele foi, escutou nós tocando aqui, aí ele pegou uma lata de leite ninho, furou um buraco lá, botou uma corda, foi no pé de imbuzeiro – acho que até hoje tem o pé de imbuzeiro. Pa-ca-rá, pa-ca-ta, teco-teco. – Que diabo é aquilo? – É Aparecido, ensinando a bater caixa. Ainda hoje tá treinando, lá! Aí eu vou contar. O primeiro ano que ele tocou mais eu, ele ganhou, parece que, doze conto. Tocou nove noites pra ganhar 12 conto. Na Penha ali. Aí ele chegou fazendo fita os parentes dele. – Aí! Contando, tudo nota de um conto. Era de um, de dois. – Aí! Cês não sabe tocar, ó, eu, contando dinheiro! Aí quando foi no outro ano, ele ganhou cem conto. Meu irmão, o menino endoidou! Rapazinho. Passou uma semana todinha contando dinheiro e mostrando o povo. Ainda hoje ele continua. Tá com 47 (anos).”

Lucas:

“Já tinha um irmão meu, que já tocava com ele (Tonheiro), ele já tinha o pife, né? Achava bonito. Meu irmão tinha um pife desse. Ele deixava lá, e eu ia lá… Chamava Sávio, ele já morreu. Aí ficava tentando dar uns tonzinho. Até que fui dando uns tonzinho. E a música aprende, tem que decorar a música pra poder tocar. Aí decorava, tava novo, né, memória boa, aí ia tentar fazer. Tem um irmão meu, esse que adoeceu, quando Tonheiro não ia nas festas assim, aí eu ia com ele. Mas o principal era ele mesmo.”

“Quando a gente vai pegar a santa – tem gente de vários lugar, né? Faz promessa com a santinha, Nossa Senhora do Desterro, aí faz a promessa. Contemplado, aí vai pagar a promessa lá. E quando termina o novenário a gente vai deixar. Tem gente que faz a promessa pra ir deixar. Aí vai deixando. Sempre sobe muita gente lá naquela serra, é muito animado. Quando tá lá, não tem nem vontade de descer. A gente sobe tocando. A banda de pife. Sobe tocando. Vai buscar e vai deixar. Só que Tonheiro já não sobe mais. Ele fica no pé da serra e os mais novo é que sobe. Tem de outros lugar, outros pifeiro. Sempre vai. Do Olho d’Água, quando eles vai, é lá encima que eles toca bastante. Vai outras bandas diferente.”

“Não pode acabar, não. Uma tradição de, quem sabe, mil anos, né? É porque o pife, ele faz parte das novenas, dos novenários. Se não tiver o pife… É que nem a bomba, o fogo. Se tiver uma novena e não tiver o fogo ou a banda de pife, ninguém sabe nem se tem a novena. Que quem anuncia a novena é o fogos. Novenário tá em tal canto. Já vai começar a reza, não é assim, mesmo? E a banda de pífano. Que esse instrumentinho pode bater, por exemplo, três, quatro quilômetro, escuta a pancada da zabumba. Aí já sabe que ali é uma novena. As peça fundamental pra novena é a zabumba e o pífaro. De preferência assim [de madeira e couro]. De quando começou, né? Inteligência dos mais velho.”

Músicos e Bandas

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