Banda de Pífanos da Caatinguinha

Localização

Local: Comunidade Quilombola de Caatinguinha – Orocó – Pernambuco

Entrevista com Alexandre Alves Pereira, da Banda de Pífano de Caatinguinha.

As comunidades de Caatinguinha e a vizinha Mata de São José, ambas no município de Orocó, são parte de um território quilombola mais amplo do qual fazem parte também as comunidades de Remanso, Vitorino e Imburana. O ano de 1958 marca o momento em que a antiga capela de taipa deu lugar a uma igreja maior na comunidade da Mata, o povoado mais antigo, que remonta ao século XIX. E é neste mesmo ano que o tocador Higino, hoje com 95 anos, inicia o povoamento da comunidade de Caatinguinha, até então, uma fazenda. Na Mata, acompanhamos a belíssima festa do padroeiro São José e entrevistamos, a seguir, na Caatinguinha, Alexandre Alves Pereira, 40 anos, pifeiro e líder comunitário, sobrinho do referido tocador Higino.

Alexandre:

“A mesma banda de pífano de Caatinguinha é que faz toda essa trajetória de animação religiosa dos novenários do território, das cinco comunidades, que é Imburana, Mata, Remanso, Caatinguinha e Vitorino. As cinco comunidades é a mesma banda. A gente já procurou até formar banda de pife nas outras comunidades, que de vez em quando a gente encontra até criança e adolescente interessado a mexer, experimentar o pífano, uma caixa, com bumbo. Mas a condição que é pouca. A gente tá trazendo aí, que recebemos da mão do mestre, que é tio Higino e aí ele disse que não era pra parar e fomos formando aí, tocando um pouquinho e tal, aí o pessoal começou a chamar…”

“Eu não mostrava ser um menino muito ativo, mas eu gostava de prestar atenção às coisas. E um dia, eu vendo tio Higino e tio Nelson, que era o grande mestre de banda de pífano – tio Higino ainda toca hoje, mesmo com 95 anos, ele ainda sopra um pife bom. Eu ficava observando nos festejos, São Brás, São Sebastião, São José, como eles tocavam bom, muito bom. E eu ficava olhando nos buracos do pífano onde é que tinha alguma nota pra indicar por que eles tocavam tão bem. E aí em casa, junto com meus irmãos naquela época, a gente estudava de manhã e ficava tomando conta da casa à tarde. Cozinhando e tal, mesmo que a gente se criou sem pai, mãe sempre trabalhando de diária e a gente ficava. Aí não tinha outros meios de diversão, brinquedo, a gente não tinha brinquedo pra brincar. A gente pegava umas mangueiras, um cano e ficava fazendo aqueles buraquinhos, na intenção que aquilo ali fosse um pife. Aí a gente soprava, soprava, soprava. – Eu sou tio Higino! – Eu sou tio Nelson! Aqueles personagem, né, inventava os personagem. E a gente tocava dum tanto que – pífano, pra quem não tem o costume, ele deixa a gente tonto – que chegava o ponto que a gente deitava pra dormir. Às vezes ficava tão tonto que deitava pra dormir. Mãe chegava em casa de quatro hora, quatro e meia, tava lá menino dormindo. – O que é? – Não, mãe, que nós tava brincando aí, de tocar pífano, e a gente caiu no sono. Aí a gente vai crescendo, não levando em consideração, porque pífano, pra gente, era um instrumento de idoso, digamos, de umas pessoas que tinha certa idade. Não tinha interesse. Eu não tinha interesse a aprender a tocar pífano. E aí quando chega um tempo, com tio Higino tocando, com tio Nelson tocando, a gente pegava os intervalos, porque também eles eram os mestres e num queriam que mexesse nos pífanos e aí talvez na hora em que eles ia almoçar a gente pegava os pífanos e fi-fi-fi-fi. – Menino, não toca nesse pífano aí, não, pra num encher de cuspe, num encher de saliva! Eles sempre tinham aquela forma de prevenir e de cuidar os seus instrumentos. – Oxi, minino, tu já tá soprando esse negócio aí, isso vai aprender! Então descobriram que no meio daquela malinosidade, que a gente tava malinando ali, né, tinha um futuro. Aí tio Higino um dia disse: – Vou fazer um pife pra você, pra não tá malinando no meu pife. Aí um dia ele fez um pife, bem parecido com esse, só que era mais grosso. Aí eu tocando o pife aqui dentro de casa, meu irmão começou também assoprando. E aí comecemo a soprar e o pessoal começou a ver. – Quanto é pra vocês tocar lá na novena, tal dia ou tantos dia, tantas noite? Aí, como a gente não tem esse hábito de cobrar, por ser uma tradição religiosa e eu não sei também como era que eles, os antes, tio Higino e tio Nelson, fazia, se recebia uma contribuição, como era. Sei que a nossa intenção era não cobrar. Hoje a gente cobra mais é só o combustível pro transporte. Que às vezes é na comunidade vizinha lá em Vitorino. Daqui pra Vitorino é nove quilômetros. Nove com nove, dezoito, né. Então, muitos que têm moto, têm carro, não quer ir gratuito. Pelo menos pela gasolina. E hoje a gente vive na comunidade, assim. Mais voluntário. Aí tio Higino, hoje, às vezes ele vem aqui pra igreja tocar duas, três partes. – Ó, agora já não é eu que toco. Já entreguei o cargo, já tô velho, num toco mais. Agora é vocês. Então a gente se sentiu nessa responsabilidade de continuar essa cultura religiosa, essa tradição religiosa que é a banda de pífano. Mesmo que o peso da banda de pífano que tinha tio Higino e tio Nelson é outro. Nem pra comparar hoje, a gente que tá começando agora, né. Em consideração, respeito à cultura e a personagem do que eles trabalhou, do que eles fez ou do que ele ainda faz dentro da comunidade, a gente tem que levar.”

“Tem os toques que eles já vem trazendo dos pais deles. Que essa banda de pífano não é só montada por tio Higino e tio Nelson. Tem também tio Seu Né, tem o filho de tio Nelson, que é Nelsino. Tinha o falecido tio Cecilo, que era o pai de tio Seu Né. Então era uma banda de pífano que se for aí calcular, tem seus noventa, cem anos. A gente vem trazendo esse legado, então é como diz, é uma responsabilidade, é um peso que hoje não tem, porque a gente não toca como eles tocavam, não. Eles tocavam era original, mesmo, de dizer assim, de você gravar um CD, um DVD e você pensar que eles tinham passado em alguma formação, alguma faculdade musical pra fazer aquele trabalho. E eles faziam aí era no naturalzão. E hoje a gente busca mais, inspira mais nas tocadas deles. Hoje o que eu toco é digamos, é um choro, é um toque que eu faço, é meu. Eu faço mais como ator do que eu tô tocando. Porque não é que eu não queira imitar eles. É porque eu não consigo imitar eles. Tá entendendo? Não é que eu não queira. Eu queria imitar. Eu queria tocar da forma que eles tocavam. É que eu não consigo tocar a escala que eles tocavam. A verdade tem que ser dita.”

“A gente toca os benditos antigos nas novenas, na hora da venda, que é aquela hora que saúda o santo. Aquela hora que saúda o santo não é qualquer um toque que a gente toca. A gente tem por tradição da forma que os grandes mestres faziam, a gente faz. Tanto a quantidade da saudação ao santo, as três vezes. Que é três vezes que vem, faz a forma, os direito, vai lá no santo, faz a forma desmanchando o esquerdo e vai lá as três vezes e aí termina. É um toque, é um bendito, seja de Padre Cícero, seja de Frei Damião. Um, bem da religião católica, do qual eles tocavam.”

 

Músicos e Bandas

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