Banda de Pífanos Santa Bárbara

Localização

Local: Araripina – Pernambuco

Entrevista com os integrantes da Banda de Pífano Santa Bárbara: José Cirilo Neto (Zé Gordinho ou Gordinho do Pífano), Manoel Pereira de Brito (Sr. Neci), Francisco José da Silva e Cícero Manoel da Silva

Em Araripina, o mestre pifeiro José Cirilo Neto, o popular Zé Gordinho, um dos últimos bastiões da cultura do pife naqueles sertões, entrincheirado com sua Banda de Pífano Santa Bárbara, resiste ao descaso dos poderes constituídos locais. A banda apresenta um repertório variado, que inclui gêneros peculiares às bandas de pífano, como a pipoca, hoje pouco executados.

Zé Gordinho:

“Essa banda começou em 2009. Agora, que eu toco, é desde criança. Eu saí daqui e fui morar num sítio. Aí lá, um colega meu, lá em Exu, me deu um zabumbinha pequeno de tambori, de madeira, aí eu disse: – Eu vou fazer minha bandinha. Eu já sei fazer os pife. Já tenho meu zabumbinha. Tenho uma caixa. Aí fiz. Aí comecei a mexer, mais ninguém aprendeu. Eu sempre tocava mais esse aqui em Ipubi mais os outro, na bandinha dele, né. E aí, no passar do tempo, encontrei com Seu Francisco, nós tocando em Serra Branca, mesmo. E eu disse: – Esse veio dá certo de tocar mais eu. Aí fiquei tocando mais ele e achando bom e lá vai, aí convidei, ele aceitou. Então o primeiro festejo que nós tiramos, o primeiro novenário foi em Lagoa do Barro. Graças a Deus fomos muito bem aplaudidos. E no decorrer do tempo, vai fazer onze anos que nós toca em Lagoa do Barro. Aí o zabumbinha eu vendi, comprei esse daí e hoje tamo junto, graças a Deus. (…) Eu agradeço muito a Deus o dom. Primeiramente, o dom que Ele me deu e tudo bem. O que eu fiz foi caprichar, né, e fazer um jeito de agradar os cliente pra gente arrumar um novenariozinho, uma renovação, até mesmo um velório, nós toca. E aniversário.”

“Padroeiro que nós toca é mais São Bom Jesus aqui e São João Batista, em Lagoa do Barro. Aqui no município. No município de Ipubi é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro; São Francisco, em Serra Branca. Junho até janeiro. Uma coisa que eu lhe digo, meu filho, que eu fico muito triste é eu ter minha bandinha morar aqui no bairro de Santa Bárbara e nós não toca um festejo em Araripina e eu queria saber o porquê! Será possível, rapaz! Eu teria muito prazer em dizer que o padroeiro que nós toca mais é Nossa Senhora da Conceição, Imaculada, em Araripina. Mas eu não posso dizer, que eu nunca toquei. E moro aqui, né? Antigamente o povo era mais religioso. As pessoas rezavam. As pessoas enchiam a igreja. A luz de vela, não tinha isso aí. A gente, quando tava tocando num novenário, quando era noite, pra gente entrar na igreja era um sufoco. Batendo no bumbo assim e o povo todo doido pra assistir, pra ver. Eu comecei a tocar, eu tinha na faixa de uns 14 anos. E aí, daí pra cá, eu fiquei gostando mesmo e gosto. E só deixo, um dia, quando eu morrer.”

“Ninguém quer. Botaram uma escolazinha, quatro dias no Sesc, no São João. E eu ainda trabalhei dois anos ensinando a fazer os pífanos e tava tão animado, meio mundo de gente, de criancinha, tocando Asa Branca, mas era a coisa mais linda. Quando foi, já não quiseram mais. Pronto e aí as crianças já não querem porque negócio da pessoa é cutucar internet, eles não querem isso aqui mais. Muitos acham isso aqui cafona, que não tem valor e a gente não pode obrigar. Eu tenho dó da gente ir morrendo e ir se acabando porque ninguém quer… Nós num pode fazer nada. Os governantes não dá a mão à gente. Porque eles podiam botar uma escola, pagar pra gente ensinar as pessoas, incentivar. Mas são os primeiros que só pensam no bornal deles. E os outros que vá pra lá.”

“Eu comecei a tocar em Tabocas, município de Exu. E todos os anos nós vamos tocar, em janeiro e agosto. O primeiro pife que eu fiz na minha vida foi de mamona, o canudo. Eu vi os tocador tocando, eu achei aquilo bonito. Aí eu botei na cabeça, eu disse: – Vou aprender! Olhei o pife, olhei direitinho, eu disse: – Eu vou fazer. Cheguei em casa, fiz um de quatro buraco. Esse de cano de mamona. Quando eu toquei parece que é Deus que bota um dedo encima. Eu toquei o hino de Nossa Senhora (de Fátima). Parece uma mentira, mas não é não. É a pura verdade. E aí, um dos tocador, que é justamente da banda dos Gitirano foi e disse: – Ué, como cê aprendeu a tocar? Vamos dar um pifinho a ele. Me deram um pifinho de taboca. Pequenininho. Aí eu não deixava mãe dormir de noite, não. – José, tá doido! – Não, mãe, deixa eu aprender. Tapa aí os ouvido, faça qualquer coisa aí, deixa eu aprender! Porque quando você se avicia numa coisa, é coisa de Deus mesmo. Aí eu aprendi, graças a Deus. E pronto.”

“Toca baião, marcha-frevo, xote. Das tocadas de forró, né. Nós toca música de Luiz Gonzaga. No repertório da bandinha mesmo, que é da origem, é marcha rebatida, alvorada, bendito, que é o mesmo hino, né? Marcha de campanha, marcha separada, são essas coisas que nós toca. Cada banda tem sua Pipoca, cada banda tem seu Cachorro.”

Francisco:

“Eu batia muita caixa, meu irmão mais velho batia zabumba. E o mais velho de todos tocava pife mais ele (pai). Aí quando meu pai morreu, ele morreu em 65. O dia que ele completou 65 anos ele morreu. (Tocava) desde pequeno, ele era de Alagoas. Veio de Alagoas. Ele fazia também. Fazia zabumba de tamburi, de imburana. Mas pesava muito aí nós não podia, né? Aí, às vezes, ia tocar novena longe, na serra, aí nós ia de a pé, porque naquele tempo tudo era difícil, né? Aí nós ia e saía com o zabumba nas costas, aí pesava muito. Aí mudou pra tambori. Mas era tudo assim, de madeira. Eu tocava mais ele. Comecei a tocar de criança, mais ele. Batendo na caixa. Meu irmão mais velho batia zabumba. Eu batia tudo, eu mexia em tudo. Só não em pife. Mas depois que ele morreu foi que eu aprendi a tocar pife. E só quem aprendeu dos que ficou vivo só foi eu. Os outros nenhum aprendeu. É porque eu tinha vocação pra aprender a tocar pife. Eu disse: – Antes d’eu morrer ainda toco pife. Deus é bom e eu aprendi mesmo. Não toco bom porque também papagaio velho não aprende a falar, mesmo. Mas nós vai levando, devagarzinho, até nós chegar lá. Estou aqui mais esse mestre aqui, que sempre me dá explicação e eu tô vendo se aprendo, né? Ainda vou aprender ainda. Antes de eu morrer, eu sei que eu aprendo. Meu desejo era tocar pife.”

Músicos e Bandas

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