Bandinha de Pífanos de São Francisco

Localização

Local: Aldeia Lagoinha (Pankararu), Petrolândia – Pernambuco

Entrevista com Cícero José da Silva (Cícero da Loja) e José Barros dos Santos (Zé de Hormino)

Os senhores Cícero da Loja, de 80 anos de idade e Zé de Hormino, de 77, são moradores da aldeia Lagoinha Pankararu. Tocam pífano desde jovens, tanto em rituais católicos como indígenas. Digno de nota é o uso alternado que os tocadores fazem entre pífanos tradicionais e parelhas de gaitas, fabricados e belissimamente ornamentados por Zé de Hormino. Indagados sobre a diferença e a preferência entre os instrumentos, disseram que a gaita facilita a tocada ao exigir menos do fôlego dos tocadores. Eles são testemunhas vivas da inundação de Petrolândia para a formação do lago de Itaparica.

Cícero da Loja:

“De 60 pra trás nós já tocava. Tocava na igreja de Petrolândia, que tá debaixo d’água. Nós descia a pocilga da barreira velha, era procissão de canoa pro cais de Petrolândia. E depois viemo pra cá e continuemo tocar até agora, graças a Deus. Tocava mais meu pai. Depois meu pai morreu, fiquei tocando mais meus menino e continuo tocando mais eles, meus menino. Nós aprendemo com os mais velho, né? Os mais velho que ensinou a nós, os filho. Nesse tempo era de taboca. Os pife, quando não era de taboca, era de metal. Zabumba era de couro de bode, feita de qualquer um pau. Imburana, mulungu. Botava um couro de bode esticado com as corda aí ela dava o tom. Aí era a que a gente tocava. Mas agora nós já tamo tocando nessas de náilon porque modi o inverno chovia muito e, quando molha, o couro não toca mais.”

Sobre a presença do pífano dentro das tradições dos índios Pankararu, Seu Cícero da Loja nos conta ainda:

“A corrida de imbu que chama. Aí é os caboclo. Aí eles chama pra pessoa tocar nas corrida de imbu. Usa o pífano mesmo. Corrida de imbu, os praiá começa a dançar – ainda essa semana teve nessa casa vizinha aí, teve eles dançando de noite. Eles começa a dançar ali, fica aquela beleza, o povo tudo reunido aí naquele terreiro e quando chega a hora, a hora do pife, aí eles manda a pessoa tocar. Eles toca pro modi os outro dançar, o povo dançar. Quando é mais tarde aí tem o cansanção. Ele se queima. Aí quando é umas quatro hora pra cinco aí eles faz aquela roda de cansanção batendo uns nos outros. Os padrinho, as madrinha. É uma brincadeira bonita. Entonce a pessoa termina no pife, tocando. Eles tocando e cabo de tatu, também.”

Zé de Hormino:

“Eu comecei a tocar com um primo meu, tinha idade de 16 a 17 anos. Aí ele tinha uma zabumbinha do tempo antigo, de couro de bode, madeira de imburana. Aí toda tarde ele batia naquela zabumba, eu morava perto, ia pra lá. Aí ele começou a me ensinar. E pedindo que eu, se interessasse – que ele já era de idade – era uma tradição dos antigo, que a gente não podia deixar ir abaixo. Que já era de muitos tempo e os mais velho tão se acabando. Aí começou, ele sempre me explicando como era, como não era as nota e eu devagarzinho fui aprendendo, ele já foi me tirando pros canto, já pra ganhar um dinheirinho, eu novo nesse tempo. Acanhado, mas tinha vontade de aprender, eu ia. Aí fiquei. Hoje graças a Deus eu agradeço a Deus dele ter me ensinado essa tradição que é dos tempo mais antigo, dos mais velho. Meu pai era zabumbeiro e faleceu e eu sempre fiquei naquela lembrança dele. Até hoje eu tô por aqui, meus amigo arruma uma tocadinha, me chamam. Eu arrumo, chamo eles também. E tô aqui satisfeito que Deus me ensinou e tenho que aproveitar o que ele me ensinou até quando Deus quiser e a minha vontade é até o fim da minha vida que eu puder fazer, não posso deixar ir abaixo, que é a tradição dos mais antigo, né?”

Músicos e Bandas

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